Enquanto a área da Segurança Pública tenta implantar uma nova fórmula de policiar comunidades antes controladas pelo crime organizado, nas escolas o trabalho de pacificação é diário, envolvendo corações e mentes de crianças e jovens marcados pela violência.
A diferença é também de escala: contam-se nos dedos as áreas que receberam Unidades Policiais Pacificadoras (UPPs) no Rio de Janeiro. Já a Secretaria de Educação do município mapeou 150 escolas em regiões conflagradas pelo tráfico, pela milícia ou nas comunidades “pacificadas” recentemente. Nessas instituições, deu início ao projeto Escolas do Amanhã.
A secretária Claudia Costin participou do lançamento do livro “Conflitos na escola: modos de transformar” e elogiou as iniciativas da sociedade civil no sentido de enfrentar a violência pela via da educação. “Minha aproximação com o trabalho do CECIP se insere na dimensão da pacificação do ambiente escolar nas relações entre alunos e de alunos com professores”, comentou.
Lançado no dia 27 de novembro no Museu da República, como parte da Primavera dos Livros, “Conflitos na escola” apresenta ideias e ferramentas para gestores, professores e estudantes evitarem que os conflitos do dia-a-dia escolar virem violência. Foi escrito por especialistas do CECIP e da organização holandesa APS International, que tem conhecimento acumulado no enfrentamento de situações de conflito escolar em vários países.
O evento foi uma oportunidade de aproximar as experiências do poder público e da sociedade civil. Foi o que ressaltou Monica Mumme, coordenadora de projetos do CECIP e especialista em Justiça restaurativa. “Vamos parar de culpar a escola que tem conflitos e violência. Precisamos desenvolver a escuta quanto ao que a escola realmente precisa, sem receita pronta. O livro ajuda a escola a se pensar como lugar de produção da cultura de paz. Ajuda a desenvolver outras maneiras de estar juntos. É o exercício de lidar com o outro de forma respeitosa e para crescimento mútuo. É preciso oferecer respostas para quem está fazendo ou quer fazer algo em relação ao problema”, afirmou.
Não faltam educadores fazendo ou querendo alguma coisa. Gente como Regina de Carvalho, diretora do Colégio Estadual República Argentina, no morro dos Macacos. A comunidade vivencia a opressão imposta pelos traficantes de drogas, mas na escola o ambiente é outro. “A chave do bom funcionamento da escola é ter pessoas da comunidade trabalhando lá. Isso minimiza conflitos externos. O vigia mora na vizinhança, o inspetor foi aluno da escola e também mora lá. A responsabilidade da educação é de todos na comunidade. Democracia é divisão de responsabilidades”, defende Regina. Ela reconhece, no entanto, que a missão não é simples: “É difícil. Tem que lutar, lutar e lutar”. O CECIP está presente no morro dos Macacos por meio do Centro Cultural da Criança (CCCria), que oferece atividades fora do horário escolar para 200 crianças entre 2 e 10 anos.
Embora recente, o projeto Escolas do Amanhã é a aposta da secretária Claudia Costin para promover bom ensino em áreas violentas. “Há grande desigualdade educacional no Rio de Janeiro. Em áreas conflagradas, as crianças sofrem bloqueios cognitivos, de tão sufocadas não conseguem se exprimir. Vamos abandonar o olhar tecnocrático e adotar um olhar diferenciado para quem vive uma situação diferente. Fizemos capacitação dos professores para trabalhar com as consequências da violência na aprendizagem”, explicou. O projeto abrange 73 comunidades e 63 bairros, com atividades das 7h às 17h: artes, esportes, reforço escolar, saúde, laboratórios de ciências. As aulas começaram em 17 de agosto, e segundo Claudia Costin já diminuiu diferença de desempenho dos alunos em relação às outras escolas.
A secretária elogiou a noção de justiça restaurativa. “É o único caminho para o combate à violência nas escolas: a construção da paz”, afirmou. Caminho este que se constrói coletivamente, como lembrou Claudius Ceccon (foto), diretor do CECIP e um dos autores do livro: “Os planos administrativos do poder público devem levar em conta a comunidade. Já vimos muitas oportunidades perdidas em ocasiões em que isso não aconteceu”.
Unindo esforços, a pacificação fica mais próxima.
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